Saramago was right and Dorne is real

My newest piece on Polytheist.com is on and it’s based on comments, posts and articles I’ve been reading here and there for some time now in websites, social media and the blogosphere. One of those instances was recently on Facebook, where polytheists called for Muslim migrants to be barred, Europe’s indigenous population and culture to be protected and even suggested that Islam and Christianity should be somehow erased. I’ve seen these and other opinions being voiced by more than one polytheist on a number of occasions, so having reached my limit, I’ve come to consciously move away from what are essentially small Trumps, adding to the already growing distance due to the fact that the way I see my religion, myself and relate to the world around me is obviously different from how others do it.

The article can be found here. What follows in the rest of this post is a Portuguese version of it, produced after a Brazilian reader asked for a translation.

***
A sentir-me como um homem do Dorne
Deixem-me começar por clarificar que este não é um texto sobre a Guerra de Tronos ou a Canção de Gelo e Fogo, embora o trabalho de George Martin forneça uma metáfora cujo sentido tornar-se-á claro a certo ponto. Por isso, se não gostas da série ou dos livros e estavas a sentir-se desapontado pelo facto de este sítio poder acolher um texto sobre Westeros, relaxa e respira fundo. Isto também não é um artigo escrito por várias pessoas, mas por um indivíduo que fala por ele mesmo e do seu ponto de vista, que é naturalmente moldado pelo local de onde ele é. Isto devia ser óbvio, mas dado o actual estado de coisas na comunidade politeísta em geral e o nível de discurso que se atingiu, talvez seja boa ideia referi-lo. Este texto é sobre o modo como eu me estou a afastar de uma parte (significativa?) dessa mesma comunidade, porque deixei de me identificar com ela. É algo que tem vindo a ganhar forma há já algum tempo, tornou-se óbvio em Janeiro e tem-se realçado desde então. Isto não quer dizer que eu estou a deixar o politeísmo: para uma vez mais clarificar, eu sou livre e firmemente um politeísta romano e não tenho qualquer intenção de mudar isso. Mas a forma como eu vivo a minha religião, vejo-me a mim e ao mundo e interajo com ele é obviamente diferente da forma como outros o fazem (ou dizem fazer). E não necessariamente no bom sentido! Em alguns casos, não é o tipo de diferença que se deva reconhecer, respeitar e abraçar, mas antes questionar e afastar, quanto mais não seja por uma questão de sanidade mental.

Por vezes, o passado é apenas o passado
Como historiador, eu estou obviamente interessado no passado e estudo-o num esforço de traçar e compreender a sua dinâmica, padrões e ecos. Como um politeísta romano, esse interesse geral é levado a outro nível, dado que, mais do que ler sobre ele, eu tento reavivar algum do passado. Não ao género de uma feira medieval ou tentativa de reverter a História, mas num esforço de fazer desses elementos passados uma parte viva do mundo moderno. Eu vou repetir para ter a certeza que todos leram: uma parte viva do mundo moderno. Este é um ponto ao qual eu voltarei várias vezes ao longo deste artigo e está, julgo, na raiz do meu distanciamento crescente de um número cada vez maior de politeístas e de mais do que uma forma.

Para começar, é o que me separa dos que querem ir além de um reavivar da antiga religião romana e desejam em vez disso uma recriação mais ampla da vida social e cívica da Roma antiga, incluindo a roupa, culinária, língua, atitudes morais e instituições políticas de então. O que não é reavivar uma religião para a tornar uma parte viva do mundo moderno, mas separá-la dele, encerrando o politeísmo romano numa concha fossilizada onde ele permanece largamente imune à passagem do tempo. Muito disto parte do facto de as pessoas terem uma predileção profunda e genuína por uma cultura ou civilização em particular, de tal modo que tentam trazê-la de volta de alguma forma. Eu percebo isso. Como historiador, eu tenho uma espécie de veia monárquica, porque eu passo tanto tempo a ler sobre reis, rainhas e príncipes, as suas vidas e cortes, que uma pequena parte de mim deseja secretamente que esses dias fossem correntes, de modo a que eu pudesse testemunha-los em vez de apenas ler sobre eles por via dos relatos de documentos com séculos de idade. Mas depois a realidade entra em cena e depressa eu lembro-me a mim mesmo que há uma diferença entre fantasiar sobre o passado e as verdadeiras necessidade e desafios de governo. E quando se trata de reavivar uma religião antiga, é preciso perceber que uma coisa é trazer de volta uma forma de politeísmo e outra bem diferente é ter um fetiche pela cultura ou período histórico que lhe deu origem.

Claro que há mais do que isso: algumas pessoas estão incertas sobre como reavivar uma religião que foi praticada abertamente pela última vez há mais de um milénio, quando o mundo era muito diferente do de hoje, e essa insegurança pode levá-las a procurar refúgio na certeza histórica. Para elas, o passado é o caminho a seguir – em quase tudo! – por medo de falhar no esforço de trazer de volta uma religião antiga de forma genuína. É, em essência, a imagem espelhada daqueles que optam pelo caminho oposto, onde tudo o que soa certo é correto porque estamos nos dias de hoje e não de ontem – uma posição também ela produto de insegurança, embora nalguns casos haja também um elemento de inconformismo. Na realidade, se o objetivo é dar nova vida a algo antigo, em vez de apenas encená-lo ou criar algo inteiramente novo, ambos os caminhos estão errados. E sim, estar errado é algo real. A formula correta encontra-se algures no meio, num misto equilibrado de tradição e modernidade que permita preservar um elo fundamental com o passado e ao mesmo tempo interligar com o presente, reavivando-se assim uma religião antiga como uma parte viva do mundo moderno.

Esta é uma linha divisória. Separa-me do que querem viver no presente com pouco ou nenhum respeito pelo passado para lá do seus motivos egoístas e prazenteiros e os que fazem o exato oposto, os que querem viver no passado com pouco interesse no presente. E depois há um terceiro grupo, mais tenebroso e potencialmente perigoso, que é o daqueles que, mais do que terem pouco interesse, desprezam o presente! São as pessoas para quem o mundo é corrupto, seguiu o caminho errado ou está a atacar-nos e que por isso mesmo é preciso salvá-lo, lutar contra ele ou resgatá-lo da podridão em que ele se encontra. E a forma como eles propõem fazê-lo é levando-nos de volta a um passado romantizado, até um tempo onde as mulheres não eram putas, os homens não eram maricas, as culturas não estavam misturadas, o cristianismo e o islão não existiam, todos eram politeístas e as pessoas organizavam-se em tribos em vez de Estados ou governos modernos. É basicamente a mesma viagem no tempo que a daqueles que querem uma recriação mais ampla do mundo antigo, só que neste caso é (também) motivada por uma profunda desconfiança ou mesmo nojo com o mundo moderno. Se ao menos pudéssemos voltar atrás no tempo, as coisas seriam melhores – dirão eles.

Já lá vamos à face feia disso, mas por agora digo apenas que eu não me reconheço nessa visão de um presente decadente ou de um passado romantizado. É verdade que o mundo moderno tem muito problemas – como qualquer época – mas também possui as ferramentas para resolvê-los e é bastante melhor em vários aspetos. Claro que eu estou a escrever como um europeu ocidental, mas conforme disse no início deste artigo, eu estou a falar por mim e do meu ponto de vista, que é naturalmente moldado pelo local de onde eu sou. E aqui, eu posso olhar para o passado e dizer, com toda a honestidade, que as coisas estão melhores: a escravatura foi proibida, a pena de morte abolida, a iliteracia está em mínimos históricos, as mulheres têm um papel muito maior na sociedade do que no passado, há uma maior liberdade de religião, expressão, movimento e participação política do que em qualquer outro período anterior (incluindo a Antiguidade Clássica), a esperança média de vida é maior, é-se livre de amar outro homem ou mulher e casar com ele/a, a sustentabilidade ambiental é um vetor político cada vez mais importante e, apesar das pressões a que está sujeito, ainda há um Estado de Providência que fornece uma rede de segurança mínima. Não é perfeito – longe disso! – mas é melhor e tem ferramentas com que melhorar.

Por isso, ao contrário de outros politeístas, eu não sou motivado por um desejo de voltar atrás do tempo. Não me sinto desfasado do mundo ocidental moderno, mesmo que ele tenha problemas em aceitar a ideia de se ser politeísta. É apenas natural que assim seja depois de séculos de domínio monoteísta, o qual, na prática, fez do culto de muitos deuses uma novidade no ocidente, mesmo que historicamente não o seja. Mas enquanto alguns propõem resolver isso levando-nos de volta, de algum modo, para uma sociedade pré-moderna onde o monoteísmo não existia, eu escolho fazê-lo abraçando e usando as liberdades de religião, expressão e associação que a modernidade me dá. Opto por falar e praticar livremente de modo a mudar perceções e encontrar um novo lugar para o politeísmo no mundo ocidental, como cidadão de um país moderno em vez de rejeitá-lo, isolando-me do meu contexto social ou recriando uma tribo pré-cristã. Porque eu não vejo a minha nacionalidade portuguesa como estando em oposição ao politeísmo romano, bem pelo contrário: o território do meu país foi em tempos governado por Roma, os seus deuses adorados aqui e eu sou nativo de uma língua e cultura latinas modernas. E se, como disse, o meu objetivo é reavivar uma religião antiga para que ela seja uma parte viva do mundo moderno, eu não tenho interesse em fingir ser um cidadão de um de Estado ou comunidade anacronicamente recriada. Em vez disso, eu cruzo a minha religião com a minha nacionalidade moderna e não vejo nisso qualquer contradição.

Tornar-se nativo
Uma consequência desse cruzamento é que eu não olho para o cristianismo ou o islão como entidades externas ou estranhas. A sério! Talvez seja por o meu ponto de vista ser o de um historiador e na volta eu conhecer estas coisas melhor do que alguns – incluindo vários dos meus compatriotas – mas eu não posso honestamente dizer que essas duas religiões são estrangeiras. Elas não são novas aqui e não foram introduzidas numa identidade portuguesa pré-existente, mas chegaram a esta parte da Europa há mais um milénio: as primeiras comunidades cristãs organizadas no que é hoje território português datam de c. 180, muito antes da fundação do meu país, o que aconteceu apenas em 1143 ou não antes de c. 1096, quando uma terra de Portugal unificada foi criada a partir dos antigos condados do Porto (ou Portucale) e Coimbra. E quando isso aconteceu, o Islão já estava na península Ibérica há cerca de quatro séculos, desde 711, e ia deixando a sua marca nas línguas, terras e costumes da região.

Talvez se possa dizer que esta é uma parte curiosa do mundo. Não é única, mas curiosa, na medida em que é produto de uma mistura de etnias e culturas. Muito antes de nascer a ideia de se ser português, esta parte da Europa foi povoada por pré-celtas indo-europeus, celtas, fenícios, talvez alguns gregos, muitos romanos, germanos, árabes e berberes do norte de África. Todos eles vieram, fizeram deste local a sua casa – alguns de forma violenta, outra nem tanto – e eventualmente tornaram-se nativos. O que quer dizer que as suas línguas, costumes e tradições também se tornaram nativas. Claro que nem todas sobreviveram até aos nossos dias ou não deixaram vestígios igualmente vincados, porque para algumas já passou demasiado tempo, enquanto outras tiveram um maior impacto ou controlaram este território de um modo mais firme. Mas todos esses povos vieram a chamar “lar” a este local, motivo pelo qual as religiões que eles praticavam podem de algum modo reclamar uma ligação a esta terra. E isso inclui o cristianismo e o islão, que tornaram-se nativos tal como os politeísmos celta e romano. Todos eles vieram de outros locais antes de se fixarem aqui e darem a seu contributo.

Assim sendo e ao contrário da Irlanda, Noruega ou Islândia, o meu país não tem uma identidade pagã bem ou sequer basicamente definida. Ao contrário dessas nações, Portugal é uma construção política e cultural posterior em vários séculos à chegada do cristianismo e islão, fazendo dele um produto parcial dessas duas religiões e por isso mesmo não inteiramente separável delas. Quer isso dizer que eu devo rejeitar ou desmantelar a minha identidade portuguesa e substitui-la por uma pré-cristã – lusitano, túrdulo, romano ou suevo – de modo a poder ser um politeísta genuíno? A resposta já foi dada: não, porque eu estou interessado em reavivar uma religião antiga para ser uma parte viva do mundo moderno, não de uma recriação ou romantização de tempos idos. Como eu disse noutro texto, não se pode alterar o passado, apenas construir sobre ele. E além disso, aceitar o cristianismo ou islão como elementos do património do meu país não quer dizer que eles devam ter privilégios ou comandar a vida pública, que eu subscreva as suas doutrinas, que eu não tente mudar hábitos mentais monoteístas (como equivaler religião a uma fé padronizada) ou que o discurso público não deva ser religiosamente mais diverso. Quer apenas e só dizer que eu reconheço o cristianismo e o islão como parte da História do meu país, independentemente de concordar ou não com as suas crenças, e não os vejo como inimigos ou invasores estrangeiros. Tal como de resto eu também aceito que muitos dos meus antepassados foram cristãos, alguns muçulmanos, sem com isso rejeitá-los ou sentir qualquer obrigação de ter as mesmas crenças que eles. E eu estou verdadeiramente confortável com isso e com o facto de ser de um país que tem um conjunto rico de camadas culturais unidas por uma História, língua, símbolos e práticas comuns. Não foi construído de forma pacífica – eu sei que não foi! – mas isso não quer dizer que não possa ser atualmente vivido em paz. Reavivar uma religião antiga não é o mesmo que reavivar ódios, erros e atitudes antigas. Por vezes, o passado deve ser mesmo só isso: passado!

Claro que isto põe-me em oposição a politeístas que têm outra visão do assunto. Eles falam do cristianismo e islão como fés estrangeiras, invasivas e opressivas, recordando insistentemente o que aconteceu há mil anos ou mais, sugerindo – ou defendendo de forma aberta – que essas duas religiões deviam ser eliminadas e os seus locais de culto destruídos para serem substituídos por templos mais antigos e originais. Até certo ponto, essas posições são compreensíveis: em alguns locais, a cristianização é um processo mais recente, enquanto que aqui ela teve lugar há mais de 1500 anos, algo que pode fazer a diferença entre feridas antigas e por isso curadas e outras abertas, ainda por fechar; em países como a Grécia, a Igreja Ortodoxa ainda tem uma mentalidade medieval e age de forma correspondente, algo que não acontece normalmente nesta ponta da Europa; e conforme disse, locais como a Noruega ou a Islândia têm uma identidade pré-cristã, o que não é o caso aqui. Para mais, embora eu entenda a ligação com as noções de invasão, opressão e assimilação forçada – porque todas essas coisas já foram feitas em nome do cristianismo e islão – não é algo que eu veja como sendo um traço exclusivo delas, mas algo que é comum a civilizações e culturas que invadem outras, independentemente da religião. E eu não estou a falar em termos hipotéticos, mas com base em factos da minha terra natal: os romanos pré-cristãos tiveram um impacto semelhante na Ibéria antiga, eliminando comunidades nativas, forçando outras a abandonarem as suas casas tradicionais e a mudarem-se para cidades novas, substituindo as suas línguas pelo latim e assimilando a sua religião, em alguns casos substituindo cultos pré-existentes – ou apropriando-se deles! Há um motivo pelo qual subsistem apenas traços limitados de cultura celta no ocidente ibérico e em particular no norte montanhoso: foi o que sobreviveu à ação dos romanos pré-cristãos.

É trágico que assim seja? Sem dúvida! Mas o que é que podemos fazer quanto isso? A sério, o que é que podemos fazer? Não estamos a falar de algo que aconteceu na última década ou século, mas entre 218 a.C. e 19, há mais de dois mil anos atrás. Vamos compensar os descendentes dessas comunidades pré-romanas? Então mais vale compensar o país inteiro, porque qualquer pessoa cuja família esteja em Portugal há pelo menos algumas gerações tem fortes probabilidades de ter alguns antepassados celtas. E também romanos e germanos e árabes e norte-africanos. Após tanto tempo, as coisas estão de tal forma misturadas que enquanto as pessoas, anacronicamente, veem como um herói nacional um chefe nativo que lutou contra Roma no segundo século antes de Cristo, elas também celebram o seu passado romano (e árabe). Porque o tempo fundiu antigos inimigos e diferentes comunidades, transformando-as num todo nacional, pelo que se o meu objetivo é reavivar uma religião antiga para fazer dela uma parte viva do mundo moderno, eu faço-o com base na minha nacionalidade portuguesa e não uma encenação de uma província romana.

Alguns politeístas discordam e sugerem em vez disso o desmantelamento das identidades e países existentes de modo a regressar a um estado de coisas original, tribal. O que é uma ideia que requer o pressuposto de que o antigo é mais legítimo do que o que se seguiu, mesmo que o segundo já esteja a caminho de ter mil anos. Aliás, no que será talvez uma afirmação mais incisiva, alguns gostavam de poder parar o tempo, voltar atrás nele, e parecem acreditar que as coisas têm que existir num formato fixo ao qual se deve regressar quando a pureza original é conspurcada pela mudança. Mas volto a dizer que não se pode alterar o passado, apenas construir sobre ele. E quando o fazemos, aquilo que obtemos é sempre de algum modo diferente do que existia antes. Podemos aceitar isso e seguir em frente com as nossas vidas ou, em alternativa, podemos viver no passado e coçar a toda a hora as suas feridas, vomitando uma memória mal digerida e afogando-nos numa mentalidade de cerco belicista onde o mundo é nosso inimigo por não conseguirmos ver, quanto mais viver para lá de acontecimentos idos. O que, já agora, é uma mentalidade muito semelhante à dos ideólogos do Daesh. Tentar voltar atrás no tempo e apagar séculos de mudança em nome de um estado de coisas original ou puro é algo que nunca correu bem.

O quê europeu?
E eis que mergulhamos enfim numa mistura tóxica de rancor para com o monoteísmo e as ansiedades presentes, nomeadamente o terrorismo e as migrações, mistura essa que reforça ou dissemina paranoia, preconceito e ódio. Ao ponto de eu por vezes perguntar-me quando é que as pessoas vão começar a escrever que querem tornar o politeísmo grande outra vez. Um exemplo claro são as vozes (crescentes?) contra o acolhimento de refugiados ou os apelos para que a população e cultura indígenas da Europa sejam protegidas de migrantes muçulmanos. Houve uma altura, não há muito tempo atrás, em que esse tipo de retórica era a imagem de marcar de supremacistas brancos, mas agora, ao que parece, está a tornar-se numa faceta mais comum entre politeístas, com pequenos Trumps a aparecerem aqui e acolá. E em resultado disso, eu tenho que perguntar a mim mesmo onde é que eu quero estar.

Para começar, porque eu tenho a certeza que quem contrapõe uma ideia de Europa indígena a migrantes vindos do Médio Oriente está, muito simplesmente, a demonstrar a sua ignorância, seja ela santa ou intencional. Caso contrário, essas pessoas saberiam que há pelo menos três mil anos que há deslocações de grupos humanos das costas sul e oriental do Mediterrâneo para a Europa. Basta pensar nos fenícios, que das suas cidades no que é hoje o Líbano e a Síria viajaram e fixaram-se no sul europeu por volta de 1100 a.C.. Ou nos cartagineses, que governaram o sul da península Ibérica durante cerca de três séculos. Ou na já mencionada invasão do mesmo território por árabes e berberes do norte de África, os quais fixaram-se e misturaram-se com a população pré-existente. E que eu saiba, a Ibéria ainda é parte da Europa. Claro que há quem responda que não é racista, que isto é uma questão de cultura e não de raça, e eu não vou duvidar dessas pessoas. Mas mesmo nesse caso, continua a ser ignorância.

Eu digo isto na qualidade de alguém que nasceu, cresceu e vive numa nação europeia que tem cerca de nove séculos, possui as fronteiras terrestres mais antigas do continente – desde 1297, altura em que a sua língua vernácula tornou-se oficial – e cuja família vive no ocidente ibérico há pelo menos quatrocentos anos. Tanto quanto eu saiba, eu sou um habitante nativo de uma antiga nação europeia, mas a cultura igualmente nativa do meu país deve muito à civilização islâmica que governou esta região durante séculos. O seu impacto pode ser encontrado na língua, arte, culinária, agricultura, povoações e topónimos portugueses. Por exemplo, o bairro histórico de Alfama, que tem alguns dos edifícios mais antigos de Lisboa, deve o seu nome ao árabe al-hamma (a fonte quente, nascente), tal como o do Algarve, onde os norte-europeus gostam de passar as suas férias, provém de al-Gharb ou “o ocidente”, porque era parte da província mais ocidental do califado omíada. O próprio nome da capital do país tem influência árabe, derivando de al-Ushbuna, que mais tarde tornou-se Lyxbona. Arroz e amêndoas são apenas dois dos produtos cujo cultivo tornou-se comum – ou mesmo tradicional – na península Ibérica graças à civilização islâmica. A arte de fazer e pintar azulejos, os quais decoram muitos dos edifícios históricos e casas modernas de Portugal, deve a sua popularidade a muçulmanos que disseminaram a prática, de tal modo que a palavra “azulejo” tem origem no árabe azuleij. O mesmo é verdade para “açorda”, de ath-thorda, que basicamente é uma sopa de pão tradicional que tem origem pelo menos parcial no período islâmico. Aliás, há mais de mil palavras de origem árabe na língua portuguesa: javali (jabali), alface (al-khas), almofada (al-mukhadda), azeite (az-zait), para dar apenas alguns exemplos. Se bem que o mais emblemático de todos será por ventura “oxalá”, que tem origem no árabe insha’Allah ou “Deus queira”. Motivo pelo qual um amigo meu em tempos disse-me que os portugueses, até certo ponto, são latinos arabizados – na aparência, costumes e língua. E, no entanto, é suposto eu acreditar que é preciso “salvar” a cultura e população indígenas da Europa de migrantes muçulmanos vindos do mundo árabe?

A sério, o que é que as pessoas querem dizer com isso? Estarão a falar de uma cultura e população nativa europeia que elas imaginam existir ou uma da qual elas têm conhecimento de facto? Se é a segunda, será do norte ou sul do continente, escandinava ou ibérica? Porque é que eu tenho a sensação que algumas das pessoas que mais falam sobre proteger a “Europa indígena” – algumas das quais nem sequer são europeias – são também aquelas que sabem menos sobre o assunto?

Atenção, isto não quer dizer que um movimento de pessoas tão grande não seja problemático. Muitos dos recém-chegados têm opiniões conservadores sobre as mulheres, sexualidade e religião, não conhecem as línguas dos seus países de acolhimento e, nessas condições, nenhum Estado sozinho consegue receber centenas de milhares de indivíduos de uma só vez. Vai ser preciso tempo, recursos, uma distribuição equilibrada de migrantes e vai ser precisa muita aprendizagem. E se não se é racista e as objeções são apenas sobre cultura, então há que lembrar que ela não é genética, mas sim aprendida, adquirida, pelo que se os europeus ocidentais conseguiram aprender e evoluir rumo ao atual estado de coisas tolerante que alguns dizem querer defender, então não há motivo pelo qual os migrantes não possam fazer o mesmo. Nós nem sempre fomos aquilo que somos hoje. O que não ajuda é ser preconceituoso, entrar em paranoia por causa de um vídeo ou texto na internet ou julgar um grupo inteiro de pessoas com base nas ações violentas de alguns. O que seria um pouco como dizer que todos os politeístas nórdicos deviam ser presos ou expulsos depois de uma notícia sobre supremacistas brancos que adoram Odin ou cometem violência racial em nome dele. Não tão boa ideia assim ser julgado pelas ações dos outros, pois não?

Por esta altura, é provável que alguns dos meus leitores estejam a pensar que o islão, ao contrário do Asatru, tem escrituras sagradas e que elas levam os muçulmanos a cometer atos violentos. O que não deixa de ser verdade, mas só até certo ponto. Sim, o Corão tem passagens agressivas e há várias que são usadas pelo Daesh para justificar as suas ações, mas também tem trechos de outra natureza, como o verso 2:256, que diz que não pode haver compulsão na religião. Eu sei que parece uma contradição tendo em conta a realidade no terreno, do terrorismo às punições por apostasia no mundo muçulmano, mas as escrituras sagradas são assim mesmo: complexas, contraditórias e a sua interpretação ou implementação é, em larga medida, uma questão de escolha seletiva por diferentes motivos. Veja-se como o Levítico é em boa parte ignorado por muitos cristãos, pelo exato motivo de que algum do seu conteúdo tornou-se socialmente inaceitável. Ou como alguns usam o mandamento “Não matarás” para justificar a sua oposição à pena de morte, enquanto outros optam por ignorá-lo. Ou até como alguns cristãos rejeitam Levítico 18:22 e 20:13, que versam sobre sexo homossexual, e preferem em vez disso focar-se por inteiro nas partes mais compassivas da Biblia.

Isto é algo que ainda está por fazer em muito do mundo muçulmano. Ainda está por fazer uma leitura seletiva e positiva do Corão, dando destaque a versos como o 2:256, reinterpretando outros e declarando alguns como nulos no mundo moderno. Alguns muçulmanos já o fazem – e há uma longa tradição disso, mesmo que minoritária – mas para outros lhe seguirem o exemplo, várias coisas têm que acontecer e uma delas é não julgar a parte como o tudo. O que equivale a dizer que se nós denegrimos uma religião no seu conjunto, sem olharmos para as suas nuances e complexidades, então estaremos a eliminar o espaço que ela tem para se reformar e evoluir, porque estaremos a transformar as coisas num jogo de soma-zero em que ou há um islão violento ou não há islão nenhum. E daí, esse talvez seja o objetivo exato de algumas pessoas, incluindo vários politeístas, porque desse modo ele podem odiar abertamente algo que gostariam de pura e simplesmente eliminar. Voltar atrás no tempo é para eles uma espécie de sonho molhado.

A jangada de pedra
Onde é que isto tudo me deixa? Bem, para usar o trabalho de George Martin, faz-me sentir como alguém do Dorne, o mais a sul dos sete reinos de Westeros. É um local diferente do resto do domínio do trono de ferro, não só por causa do clima, mas também pela cultura, na medida em que os habitantes do Dorne são em parte o resultado de uma migração massiva que não afetou o resto de Westeros. O que faz deles um povo misto e como tal peculiar, senão mesmo chocante, aos olhos do resto dos sete reinos. E isto não é uma metáfora acidental, porque o Dorne é para o mundo da Canção de Gelo e Fogo aquilo que a Ibéria islâmica era para a Europa medieval.

A ideia de que é precisar impedir a entrada de refugiados árabes de forma a preservar a cultura e população indígenas da Europa é algo que só pode ser dito por um preconceituoso ignorante ou por alguém que não está a par da História. Por exemplo, se se está fora da Europa e olha-se para ela com uma perspetiva escandinava – algo que não é inédito entre politeístas nórdicos dos Estados Unidos da América – então não é espantoso que se assuma para todo o continente aquilo que é válido para as nações nórdicas. Na realidade, na península Ibérica, indígena e nativo são em parte sinónimo de árabe e mouro. É verdade que alguns dos meus compatriotas recusam-se a reconhecê-lo – nós também temos os nossos preconceituosos – mas como historiador, é algo de que eu estou bem ciente. E alguém que diz ter uma opinião séria devia pelo menos fazer um pouco de pesquisa, embora não apenas sobre a Europa: não estou certo se todos os politeístas que vilipendiam o islão sabem que devemos a estudiosos muçulmanos a sobrevivência de clássicos como os de Aristóteles, que foram copiados e preservados em árabe sob a proteção do califado abássida. O que, no mínimo, permite questionar a noção de que o islão é uma religião inerentemente má com a qual não pode haver compromisso ou cultura.

Mas para além da ignorância, alguma da qual não é intencional e por isso mesmo é compreensível, dado que ninguém nasce ensinado, também há o discurso do ódio, a paranoia e um ressentimento profundo para com o mundo moderno ou o monoteísmo. E isso é algo mais complexo, que para mais está longe de ser inofensivo quando se lhe junta a pressão causada pelos acontecimentos dos nossos dias. Porque quando nós nos definimos como alguém que está contra, em guerra ou ressentido com alguma coisa, então não vamos ter a clareza mental necessária para enfrentarmos desafios violentos. Em vez disso, respondemos com ataques brutos, apelamos a uma espécie de guerra santa, dizemos estar cercados por todos aqueles de quem discordamos e julgamos grupos inteiros com base nas ações de alguns, autojustificando assim os nossos preconceitos, incapacidade de integração, falta de vontade para aprender e quaisquer rancores que tenhamos a respeito do passado ou do mundo moderno.

Um bom exemplo disso mesmo é a forma como alguns politeístas defendem a discriminação ativa dos monoteístas. Ou pior, sugerem – nalguns casos dizem abertamente – que o islão e cristianismo deviam ser erradicado por causa do que eles fizeram, estão a fazer ou porque são religiões más. O que em essência é pintar uma imagem complexa com um pincel grosso e odioso – muito à maneira de Donald Trump – e equivale ao mesmo tipo de dizimação cultural que essas mesmas pessoas dizem ser contra. Tal como o Daesh está a eliminar comunidades, edifícios e monumentos históricos que não coincidem com a sua visão limitada das coisas, alguns politeístas parecem querer a sua própria versão de uma limpeza, eliminando grupos que eles odeiam ou substituindo igrejas e mesquitas antigas por novos templos – na Índia, Grécia e Roma – não por elas terem sido livremente abandonadas, vendidas ou trocadas, mas porque esses locais devem ser templos por direito. Claro que alguns politeístas esclarecem que não advogam a violência física e eu acredito neles. A sério que acredito! Mas no final, não há diferença prática entre eliminar algo pela força ou lentamente por meio de um plano. No final de contas, dizimou-se porque se quis. E ninguém é melhor, mais civilizado ou moralmente superior só por ser politeísta. Se se acredita que sim, então não se é diferente de um monoteísta que condena atrocidades e critica a discriminação, mas depois faz ou propõe fazer essas mesmas coisas com a desculpa de que é em nome de uma religião boa, uma causa justa ou ideologia verdadeira. E quando isso acontece, tornamo-nos na coisa contra a qual dizemos estar a lutar, porque, de algum modo, assumimos ser inerentemente bons, acima de culpa ou imunes ao erro só por termos crenças diferentes.

Eu estou a dizer isto na qualidade de nativo de um país da Europa ocidental cuja História e identidade não podem ser desligadas do cristianismo e islão, motivo pelo qual eu não vejo essas duas religiões como inimigas. Tal como, de resto, eu não tenho rancores para com elas nem acredito que devam ser eliminadas para que o politeísmo possa prosperar. Mas a isso deve-se também o facto de o fundamentalismo religioso em Portugal ser um fenómeno marginal e a Igreja Católica daqui ser cada vez mais moderna, menos apegada a atitudes medievais. Até o imã da mesquita de Lisboa já disse em público que os muçulmanos que não se sentem confortáveis numa sociedade liberal devem mudar-se para outro sítio, pelo que a minha forma de ver as coisas é naturalmente moldada por isso e embora eu reconheça que possa não ser assim noutros sítios. Que a mundividência de outras pessoas possa ser outra, precisamente por elas terem histórias e quotidianos diferentes e enfrentarem situações que não estão presentes neste canto do mundo. Reconheço isso. Mas eu não posso viver a vida de outra pessoa, tal como não posso pedir a outros que vivam a minha. Eu não posso interagir no meu quotidiano comportando-me e olhando para as coisas de um modo que, em larga medida ou na sua totalidade, não tem qualquer ligação com a realidade social que me rodeia. Fazê-lo seria como ter uma existência esquizofrénica ou viver num mundo de sonhos. E portanto, a bem da sanidade mental ou porque eu não estar associado a preconceituosos paranoicos que parecem estar a surgir no movimento politeísta, eu não posso ficar indiferente ou ser outra pessoa que não eu mesmo.

Num livro chamado A Jangada de Pedra, José Saramago conta a história de como a península Ibérica separa-se lenta e fisicamente do resto do continente europeu. Claro que é um romance de ficção e a metáfora é em larga medida política e económica, mas também tem um aspecto cultural e eu estou a descobrir nela um lado religioso. Porque quanto mais eu discordo da retórica anti-moderna, anti-monoteísta e xenófoba de alguns – bem à imagem e semelhança de Donald Trump – mais eu me apercebo e valorizo a minha herança cultural ibérica. Por outras palavras, eu estou a tornar-me cada vez mais nativo, redescobrindo e abraçando de bom grado o ponto de vista do meu país em vez de assumir o de outros por via da internet e agindo de uma forma que está desligada do meu contexto social. E ao fazê-lo, ao tornar-me mais nativo, eu identifico-me ainda menos com as opiniões de outros politeístas de outras partes da Europa ou do mundo. De certo modo, está a ser um processo exponencial e portanto eu deixo-me ir, afastando-me de partes da comunidades politeísta em geral, enraizado numa jangada de pedra ibérica.

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2 thoughts on “Saramago was right and Dorne is real

  1. I am so very glad that you are out here on the internet writing. (And not just because I generally agree with you, despite the ocean between us.) Thank you for your work.

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