Saramago was right and Dorne is real

My newest piece on Polytheist.com is on and it’s based on comments, posts and articles I’ve been reading here and there for some time now in websites, social media and the blogosphere. One of those instances was recently on Facebook, where polytheists called for Muslim migrants to be barred, Europe’s indigenous population and culture to be protected and even suggested that Islam and Christianity should be somehow erased. I’ve seen these and other opinions being voiced by more than one polytheist on a number of occasions, so having reached my limit, I’ve come to consciously move away from what are essentially small Trumps, adding to the already growing distance due to the fact that the way I see my religion, myself and relate to the world around me is obviously different from how others do it.

The article can be found here. What follows in the rest of this post is a Portuguese version of it, produced after a Brazilian reader asked for a translation.

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A sentir-me como um homem do Dorne
Deixem-me começar por clarificar que este não é um texto sobre a Guerra de Tronos ou a Canção de Gelo e Fogo, embora o trabalho de George Martin forneça uma metáfora cujo sentido tornar-se-á claro a certo ponto. Por isso, se não gostas da série ou dos livros e estavas a sentir-se desapontado pelo facto de este sítio poder acolher um texto sobre Westeros, relaxa e respira fundo. Isto também não é um artigo escrito por várias pessoas, mas por um indivíduo que fala por ele mesmo e do seu ponto de vista, que é naturalmente moldado pelo local de onde ele é. Isto devia ser óbvio, mas dado o actual estado de coisas na comunidade politeísta em geral e o nível de discurso que se atingiu, talvez seja boa ideia referi-lo. Este texto é sobre o modo como eu me estou a afastar de uma parte (significativa?) dessa mesma comunidade, porque deixei de me identificar com ela. É algo que tem vindo a ganhar forma há já algum tempo, tornou-se óbvio em Janeiro e tem-se realçado desde então. Isto não quer dizer que eu estou a deixar o politeísmo: para uma vez mais clarificar, eu sou livre e firmemente um politeísta romano e não tenho qualquer intenção de mudar isso. Mas a forma como eu vivo a minha religião, vejo-me a mim e ao mundo e interajo com ele é obviamente diferente da forma como outros o fazem (ou dizem fazer). E não necessariamente no bom sentido! Em alguns casos, não é o tipo de diferença que se deva reconhecer, respeitar e abraçar, mas antes questionar e afastar, quanto mais não seja por uma questão de sanidade mental.

Por vezes, o passado é apenas o passado
Como historiador, eu estou obviamente interessado no passado e estudo-o num esforço de traçar e compreender a sua dinâmica, padrões e ecos. Como um politeísta romano, esse interesse geral é levado a outro nível, dado que, mais do que ler sobre ele, eu tento reavivar algum do passado. Não ao género de uma feira medieval ou tentativa de reverter a História, mas num esforço de fazer desses elementos passados uma parte viva do mundo moderno. Eu vou repetir para ter a certeza que todos leram: uma parte viva do mundo moderno. Este é um ponto ao qual eu voltarei várias vezes ao longo deste artigo e está, julgo, na raiz do meu distanciamento crescente de um número cada vez maior de politeístas e de mais do que uma forma.

Para começar, é o que me separa dos que querem ir além de um reavivar da antiga religião romana e desejam em vez disso uma recriação mais ampla da vida social e cívica da Roma antiga, incluindo a roupa, culinária, língua, atitudes morais e instituições políticas de então. O que não é reavivar uma religião para a tornar uma parte viva do mundo moderno, mas separá-la dele, encerrando o politeísmo romano numa concha fossilizada onde ele permanece largamente imune à passagem do tempo. Muito disto parte do facto de as pessoas terem uma predileção profunda e genuína por uma cultura ou civilização em particular, de tal modo que tentam trazê-la de volta de alguma forma. Eu percebo isso. Como historiador, eu tenho uma espécie de veia monárquica, porque eu passo tanto tempo a ler sobre reis, rainhas e príncipes, as suas vidas e cortes, que uma pequena parte de mim deseja secretamente que esses dias fossem correntes, de modo a que eu pudesse testemunha-los em vez de apenas ler sobre eles por via dos relatos de documentos com séculos de idade. Mas depois a realidade entra em cena e depressa eu lembro-me a mim mesmo que há uma diferença entre fantasiar sobre o passado e as verdadeiras necessidade e desafios de governo. E quando se trata de reavivar uma religião antiga, é preciso perceber que uma coisa é trazer de volta uma forma de politeísmo e outra bem diferente é ter um fetiche pela cultura ou período histórico que lhe deu origem.

Claro que há mais do que isso: algumas pessoas estão incertas sobre como reavivar uma religião que foi praticada abertamente pela última vez há mais de um milénio, quando o mundo era muito diferente do de hoje, e essa insegurança pode levá-las a procurar refúgio na certeza histórica. Para elas, o passado é o caminho a seguir – em quase tudo! – por medo de falhar no esforço de trazer de volta uma religião antiga de forma genuína. É, em essência, a imagem espelhada daqueles que optam pelo caminho oposto, onde tudo o que soa certo é correto porque estamos nos dias de hoje e não de ontem – uma posição também ela produto de insegurança, embora nalguns casos haja também um elemento de inconformismo. Na realidade, se o objetivo é dar nova vida a algo antigo, em vez de apenas encená-lo ou criar algo inteiramente novo, ambos os caminhos estão errados. E sim, estar errado é algo real. A formula correta encontra-se algures no meio, num misto equilibrado de tradição e modernidade que permita preservar um elo fundamental com o passado e ao mesmo tempo interligar com o presente, reavivando-se assim uma religião antiga como uma parte viva do mundo moderno.

Esta é uma linha divisória. Separa-me do que querem viver no presente com pouco ou nenhum respeito pelo passado para lá do seus motivos egoístas e prazenteiros e os que fazem o exato oposto, os que querem viver no passado com pouco interesse no presente. E depois há um terceiro grupo, mais tenebroso e potencialmente perigoso, que é o daqueles que, mais do que terem pouco interesse, desprezam o presente! São as pessoas para quem o mundo é corrupto, seguiu o caminho errado ou está a atacar-nos e que por isso mesmo é preciso salvá-lo, lutar contra ele ou resgatá-lo da podridão em que ele se encontra. E a forma como eles propõem fazê-lo é levando-nos de volta a um passado romantizado, até um tempo onde as mulheres não eram putas, os homens não eram maricas, as culturas não estavam misturadas, o cristianismo e o islão não existiam, todos eram politeístas e as pessoas organizavam-se em tribos em vez de Estados ou governos modernos. É basicamente a mesma viagem no tempo que a daqueles que querem uma recriação mais ampla do mundo antigo, só que neste caso é (também) motivada por uma profunda desconfiança ou mesmo nojo com o mundo moderno. Se ao menos pudéssemos voltar atrás no tempo, as coisas seriam melhores – dirão eles.

Já lá vamos à face feia disso, mas por agora digo apenas que eu não me reconheço nessa visão de um presente decadente ou de um passado romantizado. É verdade que o mundo moderno tem muito problemas – como qualquer época – mas também possui as ferramentas para resolvê-los e é bastante melhor em vários aspetos. Claro que eu estou a escrever como um europeu ocidental, mas conforme disse no início deste artigo, eu estou a falar por mim e do meu ponto de vista, que é naturalmente moldado pelo local de onde eu sou. E aqui, eu posso olhar para o passado e dizer, com toda a honestidade, que as coisas estão melhores: a escravatura foi proibida, a pena de morte abolida, a iliteracia está em mínimos históricos, as mulheres têm um papel muito maior na sociedade do que no passado, há uma maior liberdade de religião, expressão, movimento e participação política do que em qualquer outro período anterior (incluindo a Antiguidade Clássica), a esperança média de vida é maior, é-se livre de amar outro homem ou mulher e casar com ele/a, a sustentabilidade ambiental é um vetor político cada vez mais importante e, apesar das pressões a que está sujeito, ainda há um Estado de Providência que fornece uma rede de segurança mínima. Não é perfeito – longe disso! – mas é melhor e tem ferramentas com que melhorar.

Por isso, ao contrário de outros politeístas, eu não sou motivado por um desejo de voltar atrás do tempo. Não me sinto desfasado do mundo ocidental moderno, mesmo que ele tenha problemas em aceitar a ideia de se ser politeísta. É apenas natural que assim seja depois de séculos de domínio monoteísta, o qual, na prática, fez do culto de muitos deuses uma novidade no ocidente, mesmo que historicamente não o seja. Mas enquanto alguns propõem resolver isso levando-nos de volta, de algum modo, para uma sociedade pré-moderna onde o monoteísmo não existia, eu escolho fazê-lo abraçando e usando as liberdades de religião, expressão e associação que a modernidade me dá. Opto por falar e praticar livremente de modo a mudar perceções e encontrar um novo lugar para o politeísmo no mundo ocidental, como cidadão de um país moderno em vez de rejeitá-lo, isolando-me do meu contexto social ou recriando uma tribo pré-cristã. Porque eu não vejo a minha nacionalidade portuguesa como estando em oposição ao politeísmo romano, bem pelo contrário: o território do meu país foi em tempos governado por Roma, os seus deuses adorados aqui e eu sou nativo de uma língua e cultura latinas modernas. E se, como disse, o meu objetivo é reavivar uma religião antiga para que ela seja uma parte viva do mundo moderno, eu não tenho interesse em fingir ser um cidadão de um de Estado ou comunidade anacronicamente recriada. Em vez disso, eu cruzo a minha religião com a minha nacionalidade moderna e não vejo nisso qualquer contradição.

Tornar-se nativo
Uma consequência desse cruzamento é que eu não olho para o cristianismo ou o islão como entidades externas ou estranhas. A sério! Talvez seja por o meu ponto de vista ser o de um historiador e na volta eu conhecer estas coisas melhor do que alguns – incluindo vários dos meus compatriotas – mas eu não posso honestamente dizer que essas duas religiões são estrangeiras. Elas não são novas aqui e não foram introduzidas numa identidade portuguesa pré-existente, mas chegaram a esta parte da Europa há mais um milénio: as primeiras comunidades cristãs organizadas no que é hoje território português datam de c. 180, muito antes da fundação do meu país, o que aconteceu apenas em 1143 ou não antes de c. 1096, quando uma terra de Portugal unificada foi criada a partir dos antigos condados do Porto (ou Portucale) e Coimbra. E quando isso aconteceu, o Islão já estava na península Ibérica há cerca de quatro séculos, desde 711, e ia deixando a sua marca nas línguas, terras e costumes da região.

Talvez se possa dizer que esta é uma parte curiosa do mundo. Não é única, mas curiosa, na medida em que é produto de uma mistura de etnias e culturas. Muito antes de nascer a ideia de se ser português, esta parte da Europa foi povoada por pré-celtas indo-europeus, celtas, fenícios, talvez alguns gregos, muitos romanos, germanos, árabes e berberes do norte de África. Todos eles vieram, fizeram deste local a sua casa – alguns de forma violenta, outra nem tanto – e eventualmente tornaram-se nativos. O que quer dizer que as suas línguas, costumes e tradições também se tornaram nativas. Claro que nem todas sobreviveram até aos nossos dias ou não deixaram vestígios igualmente vincados, porque para algumas já passou demasiado tempo, enquanto outras tiveram um maior impacto ou controlaram este território de um modo mais firme. Mas todos esses povos vieram a chamar “lar” a este local, motivo pelo qual as religiões que eles praticavam podem de algum modo reclamar uma ligação a esta terra. E isso inclui o cristianismo e o islão, que tornaram-se nativos tal como os politeísmos celta e romano. Todos eles vieram de outros locais antes de se fixarem aqui e darem a seu contributo.

Assim sendo e ao contrário da Irlanda, Noruega ou Islândia, o meu país não tem uma identidade pagã bem ou sequer basicamente definida. Ao contrário dessas nações, Portugal é uma construção política e cultural posterior em vários séculos à chegada do cristianismo e islão, fazendo dele um produto parcial dessas duas religiões e por isso mesmo não inteiramente separável delas. Quer isso dizer que eu devo rejeitar ou desmantelar a minha identidade portuguesa e substitui-la por uma pré-cristã – lusitano, túrdulo, romano ou suevo – de modo a poder ser um politeísta genuíno? A resposta já foi dada: não, porque eu estou interessado em reavivar uma religião antiga para ser uma parte viva do mundo moderno, não de uma recriação ou romantização de tempos idos. Como eu disse noutro texto, não se pode alterar o passado, apenas construir sobre ele. E além disso, aceitar o cristianismo ou islão como elementos do património do meu país não quer dizer que eles devam ter privilégios ou comandar a vida pública, que eu subscreva as suas doutrinas, que eu não tente mudar hábitos mentais monoteístas (como equivaler religião a uma fé padronizada) ou que o discurso público não deva ser religiosamente mais diverso. Quer apenas e só dizer que eu reconheço o cristianismo e o islão como parte da História do meu país, independentemente de concordar ou não com as suas crenças, e não os vejo como inimigos ou invasores estrangeiros. Tal como de resto eu também aceito que muitos dos meus antepassados foram cristãos, alguns muçulmanos, sem com isso rejeitá-los ou sentir qualquer obrigação de ter as mesmas crenças que eles. E eu estou verdadeiramente confortável com isso e com o facto de ser de um país que tem um conjunto rico de camadas culturais unidas por uma História, língua, símbolos e práticas comuns. Não foi construído de forma pacífica – eu sei que não foi! – mas isso não quer dizer que não possa ser atualmente vivido em paz. Reavivar uma religião antiga não é o mesmo que reavivar ódios, erros e atitudes antigas. Por vezes, o passado deve ser mesmo só isso: passado!

Claro que isto põe-me em oposição a politeístas que têm outra visão do assunto. Eles falam do cristianismo e islão como fés estrangeiras, invasivas e opressivas, recordando insistentemente o que aconteceu há mil anos ou mais, sugerindo – ou defendendo de forma aberta – que essas duas religiões deviam ser eliminadas e os seus locais de culto destruídos para serem substituídos por templos mais antigos e originais. Até certo ponto, essas posições são compreensíveis: em alguns locais, a cristianização é um processo mais recente, enquanto que aqui ela teve lugar há mais de 1500 anos, algo que pode fazer a diferença entre feridas antigas e por isso curadas e outras abertas, ainda por fechar; em países como a Grécia, a Igreja Ortodoxa ainda tem uma mentalidade medieval e age de forma correspondente, algo que não acontece normalmente nesta ponta da Europa; e conforme disse, locais como a Noruega ou a Islândia têm uma identidade pré-cristã, o que não é o caso aqui. Para mais, embora eu entenda a ligação com as noções de invasão, opressão e assimilação forçada – porque todas essas coisas já foram feitas em nome do cristianismo e islão – não é algo que eu veja como sendo um traço exclusivo delas, mas algo que é comum a civilizações e culturas que invadem outras, independentemente da religião. E eu não estou a falar em termos hipotéticos, mas com base em factos da minha terra natal: os romanos pré-cristãos tiveram um impacto semelhante na Ibéria antiga, eliminando comunidades nativas, forçando outras a abandonarem as suas casas tradicionais e a mudarem-se para cidades novas, substituindo as suas línguas pelo latim e assimilando a sua religião, em alguns casos substituindo cultos pré-existentes – ou apropriando-se deles! Há um motivo pelo qual subsistem apenas traços limitados de cultura celta no ocidente ibérico e em particular no norte montanhoso: foi o que sobreviveu à ação dos romanos pré-cristãos.

É trágico que assim seja? Sem dúvida! Mas o que é que podemos fazer quanto isso? A sério, o que é que podemos fazer? Não estamos a falar de algo que aconteceu na última década ou século, mas entre 218 a.C. e 19, há mais de dois mil anos atrás. Vamos compensar os descendentes dessas comunidades pré-romanas? Então mais vale compensar o país inteiro, porque qualquer pessoa cuja família esteja em Portugal há pelo menos algumas gerações tem fortes probabilidades de ter alguns antepassados celtas. E também romanos e germanos e árabes e norte-africanos. Após tanto tempo, as coisas estão de tal forma misturadas que enquanto as pessoas, anacronicamente, veem como um herói nacional um chefe nativo que lutou contra Roma no segundo século antes de Cristo, elas também celebram o seu passado romano (e árabe). Porque o tempo fundiu antigos inimigos e diferentes comunidades, transformando-as num todo nacional, pelo que se o meu objetivo é reavivar uma religião antiga para fazer dela uma parte viva do mundo moderno, eu faço-o com base na minha nacionalidade portuguesa e não uma encenação de uma província romana.

Alguns politeístas discordam e sugerem em vez disso o desmantelamento das identidades e países existentes de modo a regressar a um estado de coisas original, tribal. O que é uma ideia que requer o pressuposto de que o antigo é mais legítimo do que o que se seguiu, mesmo que o segundo já esteja a caminho de ter mil anos. Aliás, no que será talvez uma afirmação mais incisiva, alguns gostavam de poder parar o tempo, voltar atrás nele, e parecem acreditar que as coisas têm que existir num formato fixo ao qual se deve regressar quando a pureza original é conspurcada pela mudança. Mas volto a dizer que não se pode alterar o passado, apenas construir sobre ele. E quando o fazemos, aquilo que obtemos é sempre de algum modo diferente do que existia antes. Podemos aceitar isso e seguir em frente com as nossas vidas ou, em alternativa, podemos viver no passado e coçar a toda a hora as suas feridas, vomitando uma memória mal digerida e afogando-nos numa mentalidade de cerco belicista onde o mundo é nosso inimigo por não conseguirmos ver, quanto mais viver para lá de acontecimentos idos. O que, já agora, é uma mentalidade muito semelhante à dos ideólogos do Daesh. Tentar voltar atrás no tempo e apagar séculos de mudança em nome de um estado de coisas original ou puro é algo que nunca correu bem.

O quê europeu?
E eis que mergulhamos enfim numa mistura tóxica de rancor para com o monoteísmo e as ansiedades presentes, nomeadamente o terrorismo e as migrações, mistura essa que reforça ou dissemina paranoia, preconceito e ódio. Ao ponto de eu por vezes perguntar-me quando é que as pessoas vão começar a escrever que querem tornar o politeísmo grande outra vez. Um exemplo claro são as vozes (crescentes?) contra o acolhimento de refugiados ou os apelos para que a população e cultura indígenas da Europa sejam protegidas de migrantes muçulmanos. Houve uma altura, não há muito tempo atrás, em que esse tipo de retórica era a imagem de marcar de supremacistas brancos, mas agora, ao que parece, está a tornar-se numa faceta mais comum entre politeístas, com pequenos Trumps a aparecerem aqui e acolá. E em resultado disso, eu tenho que perguntar a mim mesmo onde é que eu quero estar.

Para começar, porque eu tenho a certeza que quem contrapõe uma ideia de Europa indígena a migrantes vindos do Médio Oriente está, muito simplesmente, a demonstrar a sua ignorância, seja ela santa ou intencional. Caso contrário, essas pessoas saberiam que há pelo menos três mil anos que há deslocações de grupos humanos das costas sul e oriental do Mediterrâneo para a Europa. Basta pensar nos fenícios, que das suas cidades no que é hoje o Líbano e a Síria viajaram e fixaram-se no sul europeu por volta de 1100 a.C.. Ou nos cartagineses, que governaram o sul da península Ibérica durante cerca de três séculos. Ou na já mencionada invasão do mesmo território por árabes e berberes do norte de África, os quais fixaram-se e misturaram-se com a população pré-existente. E que eu saiba, a Ibéria ainda é parte da Europa. Claro que há quem responda que não é racista, que isto é uma questão de cultura e não de raça, e eu não vou duvidar dessas pessoas. Mas mesmo nesse caso, continua a ser ignorância.

Eu digo isto na qualidade de alguém que nasceu, cresceu e vive numa nação europeia que tem cerca de nove séculos, possui as fronteiras terrestres mais antigas do continente – desde 1297, altura em que a sua língua vernácula tornou-se oficial – e cuja família vive no ocidente ibérico há pelo menos quatrocentos anos. Tanto quanto eu saiba, eu sou um habitante nativo de uma antiga nação europeia, mas a cultura igualmente nativa do meu país deve muito à civilização islâmica que governou esta região durante séculos. O seu impacto pode ser encontrado na língua, arte, culinária, agricultura, povoações e topónimos portugueses. Por exemplo, o bairro histórico de Alfama, que tem alguns dos edifícios mais antigos de Lisboa, deve o seu nome ao árabe al-hamma (a fonte quente, nascente), tal como o do Algarve, onde os norte-europeus gostam de passar as suas férias, provém de al-Gharb ou “o ocidente”, porque era parte da província mais ocidental do califado omíada. O próprio nome da capital do país tem influência árabe, derivando de al-Ushbuna, que mais tarde tornou-se Lyxbona. Arroz e amêndoas são apenas dois dos produtos cujo cultivo tornou-se comum – ou mesmo tradicional – na península Ibérica graças à civilização islâmica. A arte de fazer e pintar azulejos, os quais decoram muitos dos edifícios históricos e casas modernas de Portugal, deve a sua popularidade a muçulmanos que disseminaram a prática, de tal modo que a palavra “azulejo” tem origem no árabe azuleij. O mesmo é verdade para “açorda”, de ath-thorda, que basicamente é uma sopa de pão tradicional que tem origem pelo menos parcial no período islâmico. Aliás, há mais de mil palavras de origem árabe na língua portuguesa: javali (jabali), alface (al-khas), almofada (al-mukhadda), azeite (az-zait), para dar apenas alguns exemplos. Se bem que o mais emblemático de todos será por ventura “oxalá”, que tem origem no árabe insha’Allah ou “Deus queira”. Motivo pelo qual um amigo meu em tempos disse-me que os portugueses, até certo ponto, são latinos arabizados – na aparência, costumes e língua. E, no entanto, é suposto eu acreditar que é preciso “salvar” a cultura e população indígenas da Europa de migrantes muçulmanos vindos do mundo árabe?

A sério, o que é que as pessoas querem dizer com isso? Estarão a falar de uma cultura e população nativa europeia que elas imaginam existir ou uma da qual elas têm conhecimento de facto? Se é a segunda, será do norte ou sul do continente, escandinava ou ibérica? Porque é que eu tenho a sensação que algumas das pessoas que mais falam sobre proteger a “Europa indígena” – algumas das quais nem sequer são europeias – são também aquelas que sabem menos sobre o assunto?

Atenção, isto não quer dizer que um movimento de pessoas tão grande não seja problemático. Muitos dos recém-chegados têm opiniões conservadores sobre as mulheres, sexualidade e religião, não conhecem as línguas dos seus países de acolhimento e, nessas condições, nenhum Estado sozinho consegue receber centenas de milhares de indivíduos de uma só vez. Vai ser preciso tempo, recursos, uma distribuição equilibrada de migrantes e vai ser precisa muita aprendizagem. E se não se é racista e as objeções são apenas sobre cultura, então há que lembrar que ela não é genética, mas sim aprendida, adquirida, pelo que se os europeus ocidentais conseguiram aprender e evoluir rumo ao atual estado de coisas tolerante que alguns dizem querer defender, então não há motivo pelo qual os migrantes não possam fazer o mesmo. Nós nem sempre fomos aquilo que somos hoje. O que não ajuda é ser preconceituoso, entrar em paranoia por causa de um vídeo ou texto na internet ou julgar um grupo inteiro de pessoas com base nas ações violentas de alguns. O que seria um pouco como dizer que todos os politeístas nórdicos deviam ser presos ou expulsos depois de uma notícia sobre supremacistas brancos que adoram Odin ou cometem violência racial em nome dele. Não tão boa ideia assim ser julgado pelas ações dos outros, pois não?

Por esta altura, é provável que alguns dos meus leitores estejam a pensar que o islão, ao contrário do Asatru, tem escrituras sagradas e que elas levam os muçulmanos a cometer atos violentos. O que não deixa de ser verdade, mas só até certo ponto. Sim, o Corão tem passagens agressivas e há várias que são usadas pelo Daesh para justificar as suas ações, mas também tem trechos de outra natureza, como o verso 2:256, que diz que não pode haver compulsão na religião. Eu sei que parece uma contradição tendo em conta a realidade no terreno, do terrorismo às punições por apostasia no mundo muçulmano, mas as escrituras sagradas são assim mesmo: complexas, contraditórias e a sua interpretação ou implementação é, em larga medida, uma questão de escolha seletiva por diferentes motivos. Veja-se como o Levítico é em boa parte ignorado por muitos cristãos, pelo exato motivo de que algum do seu conteúdo tornou-se socialmente inaceitável. Ou como alguns usam o mandamento “Não matarás” para justificar a sua oposição à pena de morte, enquanto outros optam por ignorá-lo. Ou até como alguns cristãos rejeitam Levítico 18:22 e 20:13, que versam sobre sexo homossexual, e preferem em vez disso focar-se por inteiro nas partes mais compassivas da Biblia.

Isto é algo que ainda está por fazer em muito do mundo muçulmano. Ainda está por fazer uma leitura seletiva e positiva do Corão, dando destaque a versos como o 2:256, reinterpretando outros e declarando alguns como nulos no mundo moderno. Alguns muçulmanos já o fazem – e há uma longa tradição disso, mesmo que minoritária – mas para outros lhe seguirem o exemplo, várias coisas têm que acontecer e uma delas é não julgar a parte como o tudo. O que equivale a dizer que se nós denegrimos uma religião no seu conjunto, sem olharmos para as suas nuances e complexidades, então estaremos a eliminar o espaço que ela tem para se reformar e evoluir, porque estaremos a transformar as coisas num jogo de soma-zero em que ou há um islão violento ou não há islão nenhum. E daí, esse talvez seja o objetivo exato de algumas pessoas, incluindo vários politeístas, porque desse modo ele podem odiar abertamente algo que gostariam de pura e simplesmente eliminar. Voltar atrás no tempo é para eles uma espécie de sonho molhado.

A jangada de pedra
Onde é que isto tudo me deixa? Bem, para usar o trabalho de George Martin, faz-me sentir como alguém do Dorne, o mais a sul dos sete reinos de Westeros. É um local diferente do resto do domínio do trono de ferro, não só por causa do clima, mas também pela cultura, na medida em que os habitantes do Dorne são em parte o resultado de uma migração massiva que não afetou o resto de Westeros. O que faz deles um povo misto e como tal peculiar, senão mesmo chocante, aos olhos do resto dos sete reinos. E isto não é uma metáfora acidental, porque o Dorne é para o mundo da Canção de Gelo e Fogo aquilo que a Ibéria islâmica era para a Europa medieval.

A ideia de que é precisar impedir a entrada de refugiados árabes de forma a preservar a cultura e população indígenas da Europa é algo que só pode ser dito por um preconceituoso ignorante ou por alguém que não está a par da História. Por exemplo, se se está fora da Europa e olha-se para ela com uma perspetiva escandinava – algo que não é inédito entre politeístas nórdicos dos Estados Unidos da América – então não é espantoso que se assuma para todo o continente aquilo que é válido para as nações nórdicas. Na realidade, na península Ibérica, indígena e nativo são em parte sinónimo de árabe e mouro. É verdade que alguns dos meus compatriotas recusam-se a reconhecê-lo – nós também temos os nossos preconceituosos – mas como historiador, é algo de que eu estou bem ciente. E alguém que diz ter uma opinião séria devia pelo menos fazer um pouco de pesquisa, embora não apenas sobre a Europa: não estou certo se todos os politeístas que vilipendiam o islão sabem que devemos a estudiosos muçulmanos a sobrevivência de clássicos como os de Aristóteles, que foram copiados e preservados em árabe sob a proteção do califado abássida. O que, no mínimo, permite questionar a noção de que o islão é uma religião inerentemente má com a qual não pode haver compromisso ou cultura.

Mas para além da ignorância, alguma da qual não é intencional e por isso mesmo é compreensível, dado que ninguém nasce ensinado, também há o discurso do ódio, a paranoia e um ressentimento profundo para com o mundo moderno ou o monoteísmo. E isso é algo mais complexo, que para mais está longe de ser inofensivo quando se lhe junta a pressão causada pelos acontecimentos dos nossos dias. Porque quando nós nos definimos como alguém que está contra, em guerra ou ressentido com alguma coisa, então não vamos ter a clareza mental necessária para enfrentarmos desafios violentos. Em vez disso, respondemos com ataques brutos, apelamos a uma espécie de guerra santa, dizemos estar cercados por todos aqueles de quem discordamos e julgamos grupos inteiros com base nas ações de alguns, autojustificando assim os nossos preconceitos, incapacidade de integração, falta de vontade para aprender e quaisquer rancores que tenhamos a respeito do passado ou do mundo moderno.

Um bom exemplo disso mesmo é a forma como alguns politeístas defendem a discriminação ativa dos monoteístas. Ou pior, sugerem – nalguns casos dizem abertamente – que o islão e cristianismo deviam ser erradicado por causa do que eles fizeram, estão a fazer ou porque são religiões más. O que em essência é pintar uma imagem complexa com um pincel grosso e odioso – muito à maneira de Donald Trump – e equivale ao mesmo tipo de dizimação cultural que essas mesmas pessoas dizem ser contra. Tal como o Daesh está a eliminar comunidades, edifícios e monumentos históricos que não coincidem com a sua visão limitada das coisas, alguns politeístas parecem querer a sua própria versão de uma limpeza, eliminando grupos que eles odeiam ou substituindo igrejas e mesquitas antigas por novos templos – na Índia, Grécia e Roma – não por elas terem sido livremente abandonadas, vendidas ou trocadas, mas porque esses locais devem ser templos por direito. Claro que alguns politeístas esclarecem que não advogam a violência física e eu acredito neles. A sério que acredito! Mas no final, não há diferença prática entre eliminar algo pela força ou lentamente por meio de um plano. No final de contas, dizimou-se porque se quis. E ninguém é melhor, mais civilizado ou moralmente superior só por ser politeísta. Se se acredita que sim, então não se é diferente de um monoteísta que condena atrocidades e critica a discriminação, mas depois faz ou propõe fazer essas mesmas coisas com a desculpa de que é em nome de uma religião boa, uma causa justa ou ideologia verdadeira. E quando isso acontece, tornamo-nos na coisa contra a qual dizemos estar a lutar, porque, de algum modo, assumimos ser inerentemente bons, acima de culpa ou imunes ao erro só por termos crenças diferentes.

Eu estou a dizer isto na qualidade de nativo de um país da Europa ocidental cuja História e identidade não podem ser desligadas do cristianismo e islão, motivo pelo qual eu não vejo essas duas religiões como inimigas. Tal como, de resto, eu não tenho rancores para com elas nem acredito que devam ser eliminadas para que o politeísmo possa prosperar. Mas a isso deve-se também o facto de o fundamentalismo religioso em Portugal ser um fenómeno marginal e a Igreja Católica daqui ser cada vez mais moderna, menos apegada a atitudes medievais. Até o imã da mesquita de Lisboa já disse em público que os muçulmanos que não se sentem confortáveis numa sociedade liberal devem mudar-se para outro sítio, pelo que a minha forma de ver as coisas é naturalmente moldada por isso e embora eu reconheça que possa não ser assim noutros sítios. Que a mundividência de outras pessoas possa ser outra, precisamente por elas terem histórias e quotidianos diferentes e enfrentarem situações que não estão presentes neste canto do mundo. Reconheço isso. Mas eu não posso viver a vida de outra pessoa, tal como não posso pedir a outros que vivam a minha. Eu não posso interagir no meu quotidiano comportando-me e olhando para as coisas de um modo que, em larga medida ou na sua totalidade, não tem qualquer ligação com a realidade social que me rodeia. Fazê-lo seria como ter uma existência esquizofrénica ou viver num mundo de sonhos. E portanto, a bem da sanidade mental ou porque eu não estar associado a preconceituosos paranoicos que parecem estar a surgir no movimento politeísta, eu não posso ficar indiferente ou ser outra pessoa que não eu mesmo.

Num livro chamado A Jangada de Pedra, José Saramago conta a história de como a península Ibérica separa-se lenta e fisicamente do resto do continente europeu. Claro que é um romance de ficção e a metáfora é em larga medida política e económica, mas também tem um aspecto cultural e eu estou a descobrir nela um lado religioso. Porque quanto mais eu discordo da retórica anti-moderna, anti-monoteísta e xenófoba de alguns – bem à imagem e semelhança de Donald Trump – mais eu me apercebo e valorizo a minha herança cultural ibérica. Por outras palavras, eu estou a tornar-me cada vez mais nativo, redescobrindo e abraçando de bom grado o ponto de vista do meu país em vez de assumir o de outros por via da internet e agindo de uma forma que está desligada do meu contexto social. E ao fazê-lo, ao tornar-me mais nativo, eu identifico-me ainda menos com as opiniões de outros politeístas de outras partes da Europa ou do mundo. De certo modo, está a ser um processo exponencial e portanto eu deixo-me ir, afastando-me de partes da comunidades politeísta em geral, enraizado numa jangada de pedra ibérica.

Prepping up

Cão

With just four days to go before my first celebration and formal sacrifice to Quangeio, which I chose to honour annually on August 24th (see the final section here), it’s time to start getting things ready. I’ve already written an initial prayer to be uttered in the morning in front a temporary shrine, which should include the image of a dog and a candle to be offered along with the words. It’s a simple offering, but I figure that’s how a first contact should be, especially since there’s a symbolic charge in it, in that the lighting of the candle signifies the (re)kindling of His cult. Also, since I’m acting on the assumption that He’s a canine deity, the prayer will make that clear by including the words “if you are the canine god, the dog god” and several variations throughout, in a total of four “if you are”. And yes, the number is by design.

In the afternoon, my plan is to perform a formal ceremony in Roman rite, i.e. covered head, ritual fire, opening offerings of incense and wine to Janus, Vesta and Jupiter and closing libations in reversed order (so that Janus closes just as He opened and Vesta is always at the center). I’m not yet sure what I’m going to offer Quangeio, but a cake and meat, together with wine, is at the top of my list of possibilities. When inviting Him to witness the sacrifice and received what I have to offer Him, I’ll utter another prayer, longer and with my first attempt at epithets of His, though again with the “if you are” lines for good measure. Since I’m not sure if He’s a celestial or terrestrial god, I’ll work on the assumption that He has both aspects, which is not impossible, and so while some offerings to Him will be burned, others will be poured into a circular bowl with fresh soil. I should also ask Him to bless several portions of dog food, one of which I’ll give to my own as both a present – think of it as a sort of canine Christmas day – and a tribute to Quangeio. The other portions will be left outdoors for stray dogs to feed on. Once back home, having also poured outside the offerings placed on the circular bowl, I’ll take my dogs for a walk, offer them a few more treats and then finally, before sunset, light another candle with a third prayer, which should include a request for signs from Quangeio.

And then, one plays the waiting game, hoping you got things right. If not, you persist and eventually go back to the drawing board.

The world of the Wayfarers

Of the many gods worshipped as Lares in the ancient Roman world – and there were many of Them, some of a strictly local nature – there were the Lares Viales, which I’m sure you’ve heard about before if you’ve been following this blog for some time now. They’re closely related and sometimes undistinguishable from the Lares Compitales, for the obvious reason that while the former preside over the viae or roads, the latter rule the compitia or crossroads. Hence in his De Lingua Latina – book 6, chapter 25 – Varro says the Compitalia is a celebration in honour of the Lares Viales. This, by the way, is one of the few written references to Them in Roman sources, the other being Plautus’ Mercator, line 865, though in that instance there appears to be no confusion with other Lares. But whereas the Compitales where the object of a public cult, both before and after the Augustan reform of 7 BCE, and thus were given multiple shrines in Rome (Beard et al. 2010: 184), no such attention appears to have been awarded to the Lares Viales, which probably explains why there’s only one known altar to Them in Rome (CIL VI 36812). Of course, this doesn’t mean that They had few worshippers – at least not necessarily – but simply that the structures and shrines dedicated to the Lares Viales may have been of a more common and hence less perennial nature. Think of plain cairns, for instance, which are a natural expression of a wayfaring cult with no official status or wealthy patrons. A similar scarcity of pieces is true for the rest of the old Roman world, with one notable exception.

Physical traces
In total, there are thirty six known altars dedicated to the Lares Viales. Apart from the aforementioned example from Rome, there’s a second piece from Italy (CIL XI 3079), one from Dacia (CIL III 1422), another from Morocco (CIL VIII 9755) and one from Gaul (CIL XII 4320). There’s also three from the eastern half of the Iberian Peninsula (AE 1903 185; CIL II 2987) and then a whopping twenty eight altars in the northwest corner of the region, mostly in modern-day Galicia (Franco Maside 2002: 218-9).

Places where altars to the Lares Viales were found.

Places where altars to the Lares Viales were found.

The exact reason for this disproportion is unclear, but it may be connected to the late Romanization of northern Iberia, for while the south was conquered by Rome by the start of the second century BCE, it was only two hundred years later that the Asturias and surrounding regions were subdued. And unsurprisingly, such a chronological discrepancy carries cultural consequences, in that the south was already well within the Roman world by the time the north was entering it. William van Andringa noted as much, pointing out that religious practices reflected more closely those of Rome in long-conquered provinces like Baetica (southern Spain): in Tucci, Hercules, Jupiter Optimus Maximus and Pietas Augusta were popular, as were Diana, Venus, Libertas Augusta, Mars Augustus and the Lares Augustorum in Singili Barba. But in Lugo, Galicia, during the Roman period, a myriad of native Iberian gods were worshipped alongside Jupiter (van Andringa 2011: 86). No surprise then that Portela Filgueiras suggested that, in northwest Iberia, the Lares Viales and the king of the gods fulfilled the same role as the imperial cult elsewhere, i.e. were a religious expression of loyalty towards the Roman State (1984: 157). On that note and despite the fact that her work is three decades old and may therefore be somewhat outdated, it is nonetheless worth mentioning that Portela Filgueiras found no archaeological traces of the Lares Augusti being worshipped in Galicia and only two for the Lares Romani (or four, if you consider the borders of Roman Galicia, which included northern Portugal). And that’s despite the fact that over two dozen pieces dedicated to those two divine groups have been found elsewhere in the Iberian Peninsula (Portela Filgueiras 1989: 161).

If they fulfilled the role of the imperial cult, then the popularity of the Lares Viales in ancient Galicia was an early or at best intermediate stage in a process of cultural assimilation. Had it started earlier or lasted longer, beyond Christianization, and perhaps the Lares Augusti would have become more popular in the region and maybe even displace the Lares Viales. But to thus conclude that Their popularity was just a product of a political scheme is to barely scratch the surface, for syncretism or assimilation of religious practices can only work if there’s a commonality, something that’s shared by both the new and old and allows for a transition. Which is why some have suggested that the Lares Viales of ancient Galicia were essentially a Roman mask to much older cults (Santos Yanguas 2014: 254). In other words, there must have been pre-existing entities who were already popular in the region and whose worshippers found a suitable Latin expression to their devotion in the Lares Viales. Had it been merely a case of a religious phenomenon produced by the movements of Roman troops along north-Iberian roads, then one would expect to find a similar result elsewhere in Europe. Yet that’s not the case. The popularity of the Lares Viales in Galicia is exceptional, so it stands to reason that there must have been exceptionally popular wayfaring gods of some sort during the region’s pre-Roman period, which, combined with the late Romanization, produced the cluster of altars visible in the map above. Who were those deities is a question to which there is no answer, since also unlike what happens elsewhere in the Iberian Peninsula and indeed in the Roman world, They were not syncretised by means of epithets. There’s nothing along the lines of Mars Nodens, Apollo Belenus or Silvanus Sinquas – there’s just Lares Viales.

A continuum
Perhaps even more enticing is the awareness that Galicia remains a land religiously defined by wayfaring. It is marked by scores of travellers on traditional courses signalled by shells and cairns, though their destination is not a polytheistic shrine, but rather a Catholic one in Santiago de Compostela. Now before anyone jumps to the conclusions, the Galician cult of Saint James is not a Christianized version of an older, pre-Christian cult. There are elements of it, yes, the cairns being a clear example, but you’ll find that pretty much anywhere in Europe where there are hiking trails or pilgrimage routes. The fact that the 5th century bishop Martin of Dume (Braga, Portugal), in chapter 16 of his De Correctione Rusticorum, mentions the lighting of candles at crossroads is hardly evidence of a persistent worship of the Lares Viales in ancient Galicia. And that’s because in those same lines he also mentions the worshipping of trees and boulders, performing auguries, celebrating the Volcanalia and Calends, stepping in with your right foot, throwing bread and wine into fountains and invoking Minerva when weaving. Which begs the question of how far the text reflects a local reality that was observed first-hand or merely employs a standardized list of pagan practices in use by any Christian missionary at the time.

Roadside sign pointing the way to Santiago de Compostela, complete with a cairn. Source

Roadside sign pointing the way to Santiago de Compostela, complete with a cairn. Source

The truth is that the history of the Galician shrine of Saint James is complex and does not fit into the simplistic model of a pre-Christian cult with a Christian guise – though that is no doubt a popular belief among modern pagans and polytheists, especially those affected by the way too common form of paranoia known as siege mentality. For starters, because organized Christianity in the Iberian Peninsula goes back to c. 180, but the presumed discovery of the body of Saint James took place in c. 813. It’s a gap of over six centuries and between those two dates there was the officialization of Christianity, the outlawing of pagan religions, Germanic invasions and settlement, renewed missionary activity by Martin of Dume and others, schisms and internal struggles between Christian sects (Arianism, Priscilianism, Donatism, etc.), the Muslim conquest of almost all of the Iberian Peninsula and finally the start of the Reconquista in c. 720. By the time the body of the apostle is said to have been discovered, religious strife in Iberia was not between Christians and traditional polytheists, but between different movements of the former and Islam. It is revealing that the presumed tomb of Saint James, who was killed in Palestine and not in Galicia (Acts of the Apostles, 12:2), may in fact have been that of Priscillian, a Galician bishop who was decapitated for heresy in 385 and had a strong following in the region. That a remnant or memory of a cult to his remains may have been picked up by the Catholic Church in the first century of war against the Muslim south, thus in time providing the northern Christian kingdoms with a reinforced religious banner, goes to show how detached the Galician shrine of Saint James is from any hypothetical pre-Christian version. Even more so if one considers that the Asturian chronicles of the late ninth and early tenth centuries – the Albeldense and both versions of the Alfonso III – say nothing about the “miraculous discovery” in Santiago de Compostela, thus placing the popularity of the Catholic cult at an even later date.

Still, there is a coincidence, an accidental continuum, if you will: the land where the Lares Viales appear to have been more popular is still a country of travellers, defined for centuries by wayfaring. That’s actually the reason why this blog’s header image is a photo of a golden scallop on cobblestones: shells have become a symbol of the way of Saint James – the exact motive is unknown – and you’ll see them being used by just about any pilgrim, decorating Galician churches and signs along roads and hiking trails and find dozens of them in golden metal on the medieval streets of Santiago de Compostela, marking old pilgrimage routes.

Old ways made new
In using the scallop, I’m drinking from the continuum and using it to express my west-Iberian roots, mercurial devotion and worship of the Lares Viales, employing what has essentially become a recognizable symbol of travellers and movement in the land where the gods of the roads were popular. I’m not integrating Saint James into my practices or pantheon, just as the shrine at Santiago de Compostela didn’t replace a pre-Christian cult site, but I am picking up elements, similarly to Catholic pilgrims and non-religious hikers who have taken up the older practice of erecting cairns. It’s a continuous use and reuse of gestures and symbols in an ever-present Galician background of wayfaring that stretches back over two millennia. And incidentally, when I was midway through writing this post and left the computer to join a few friends at a party, I found two clamshells down the street and saw two roosters walking by a busy road in a nearby village. Which is interesting at the very least.

Perhaps it’s time I add the pieces and start something cohesive and concrete. I’m already a devotee of Mercury and honour the Lares Viales alongside Him on January 4th, the first days of April and am considering two additional annual celebrations (thus reaching a total of four). The gods of roads are also in my daily prayers and, every time I pour wheat on a wayside or cairn to Mercury, I pour an extra for Them. There are Iberian gods full of mercurial potential, like Ilurbeda, for whom there are archaeological links to the Lares Viales, or Quangeio, hypothetically a god’s companion just as dogs are humans’. A basic philosophy has been worked out and there’s plenty of symbols to choose from, be it scallops, wheels, travellers’ staffs, winged boots or hats, cairns or canines. There’s even fertile ground for an initiatory element with the goal of becoming a Lar Viale upon death and thus join Mercury’s divine entourage of travelling gods.

Perhaps I should take the clamshells and roosters as a hint, add the pieces I already have and lay the foundations of something new, something that may become a tradition if it survives the test of time. An Iberian branch of Roman polytheism, complete with its own coherent set of ideas and practices and focusing on the Lares Viales and Mercury as foremost among Them. Of course, it would have to be done in full awareness that human existence is brief, no more than a few decades long, so if such a religious construct is to become a tradition, grow and be successful, I will not see it in my lifetime. But I can still sow the fields, I can lay the first stone. Every journey starts with a single step, even if you do not reach the intended destination and others have to continue for you. You do your part, no matter how small, and then let others do theirs.

Perhaps it’s time for a Way of the Wayfarers to be born.

Cairns on the road to Finisterra - Galicia's Land's End. My own photo from 2010.

Cairns on the road to Finisterra – Galicia’s Land’s End. My own photo from 2010.

Works cited
BEARD, Mary; NORTH, John; PRICE, Simon. 2010. Religions of Rome, volume I: a History. Cambridge: Cambridge University Press.
FRANCO MASIDE, Rosa María. 2002. “Lares Viales na provincia de A Coruña. In Gallaecia n. 21, Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela, pp. 215-222.
PORTELA FILGUEIRAS, Maria Isabel. 1984. “Los dioses Lares en la Hispania romana”. In Lucentum, n. 3, Alicante: Universidad de Alicante, pp. 153-180.
SANTOS YANGUAS, Narciso. 2014. “El culto a los Lares Viales en Asturias”. In Ilu: Revista de Ciencias de las Religiones, n. 25. Madrid: Universidad Complutense de Madrid, pp. 251-263.
VAN ANDRINGA, William. 2011. “Religions and the integration of cities in the Empire in the second century AD: the creation of a common religious language”. In A Companion to Roman Religion, ed. Jörg Rüpke. Blackwell: Oxford, pp. 83-95.

Iberian top-menu section

I added a new page to the top menu, this time for the sole purpose of gathering the links to my posts on pre-Christian Iberian gods. Since information in English can be hard to come by – as several people have pointed out to me – and I’ve published a handful of texts here, I thought it best to make them more readily available by listing them in an immediately accessible fashion and with a few caveats for good measure. In time, as I write more posts on the same or other pre-Christian Iberian gods, I’ll add the links to the page.

Adjusting my fasti

The inevitable entry of Quangeio into my religious life and the question of when to commemorate Him annually took me back to my festive calendar. There’s a balance I try to keep in it, avoiding celebrations in consecutive or close days as much as possible so as to make my practice easier to manage and harmonize with modern life. I’m not a priest, let alone a full-time paid priest, meaning my daily routine is made up of things other than religion and I have to make room for all of them. Plus, ideally, Roman ritual often calls for a fire, which in turn requires firewood. While in the past this would have been unproblematic, since it was an essential part of any household, today’s housing has turned firewood into an extra, something that has to be collected for very specific purposes, with the added difficulty that forested areas may not be next door in modern cities. An urban park is often the closest thing, but the amount and quality of the twigs it can yield may be limited. And while at the moment I live in a small city and have a large pine forest a short distance away, that may not be the case in years to come. So taking all of this into consideration, I decided to make several adjustments to my religious calendar so as to make things more practical with regard to both time and resources. In total, there were eleven changes, which resulted in the following festive calendar:

Fasti

Moving festivals
In four instances, I moved annual feasts so as to overlap them with either the Nones or Ides of a given month. Since I ritually burn offerings on those occasions anyway, I reasoned that instead of duplicating ceremonies and ritual fires, it would be best to simply change the date of some celebrations by a few days. Thus, rather than marking Vestalia on June 9th, I pushed it to the Ides on June 13th and made a similar change to Apollo’s yearly sacrifice, moving it from July 13th to the 15th, Hercules’ from August 4th to the 5th and my commemoration of emperor Julian the Faithful from November 3rd to the 5th. In the first two cases, there’s actually a symbolic gain, since the Ides are the middle and hence a sort of focus or pinnacle of a month. So it is not without meaning that Vesta, goddess of the fireplace, should be celebrated on the focal point of June and Apollo on the summit of the seventh month. Emperor Julian’s day is a bit of an approximation, since he was made Caesar on 3 November 355 and became the sole Augustus on 6 November 361, so the Nones are somewhere in the middle.

However, whereas in all of these cases the ritual used is always Roman, and hence annual and monthly offerings may be burned during the same ceremony in a structured manner, the same cannot be said of instances where different rites are employed. That’s the case of the Dominalia and Tonitralia, dedicated to Freya and Thor and which up until now I’ve been marking on May 1st and November 13th, respectively. Since They’re Norse deities, I use the ritus aprinus, which means that I have to light up two ritual fires in the same day for consecutive ceremonies. Sometimes that may be possible, but others there may be time constrains. As such, in those two cases, I decided to separate yearly and monthly sacrifices, thus moving the Dominalia to May 25th and the Tonitralia to November 9th. These dates are still somewhat experimental, as they may be changed in the event of signs that manifest divine disapproval.

I also moved the date of the Arentalia, dedicated to the Iberian gods Arentius and Arentia. I honour Them in Roman rite, so the issue there is not one of ritual duplication, but rather of some dispersal. See, the Calends call for offerings to Janus, Juno and the Family Lares, which are then disposed of in a structured manner, ideally in a ritual fire. To do that in an annual ceremony honouring Arentius and Arentia may be somewhat counterproductive when you’re trying to connect with Them, so assuming that less recipients allows for a greater focus, I moved the Arentalia to September 5th. Here too there’s an element of added symbolism, for I assign the Nones to my Family Lares alone and since I see Them as my ancestors and my family has been in the Iberian Peninsula for at least 400 years, it is not without a happy meaning that the Nones of September are the date of my annual commemoration of an Iberian divine pair.

Njord’s festivity was also moved, though not by a need to manage raw materials. His celebration is normally done without a ritual fire, consisting of a sand boat on a beach on which offerings are placed and consecrated with sea water. For the past few years, I’ve been doing that on July 3rd, but I’m presently considering a new feast to Mercury on the 4th (more on that in a later post), so in order to avoid two events in consecutive days, I moved the Niordalia to July 9th, which is in line with the numerical symbolism of Norse mythology. I’m less concerned with proximity in the case of Anubis’ annual commemoration, which I’ve been marking on February 7th, but decided to move to the 11th. It’s closer to Parentalia, which is appropriate, and since my offerings to Him are not burned and can be done at home, it’s less time and wood-consuming.

Additions
Finally, I added two new annual celebrations. One is Laralia, which is dedicated to the Lares Alcobacenses or the gods of my homeland. Since they’re partially identical to my ancestors, I figured that a good time to honour Them would be after Caristia, which is a family feast. It does mean that I’ll have to perform ceremonies on consecutive days, something I try to avoid, but I’m willing to go the extra mile in this case, since there’s an additional symbolism on February 23rd: it’s in line with Silvanus’ annual celebration on October 23rd, which is important, given that I’ve come to place Him as a leading deity among the Lares Alcobacenses.

And last, but certainly not least, I picked August 24th for Quangeio’s yearly festival. The reasons are multiple: it’s practical, since it’s an empty part of my religious calendar; it’s symbolic, given that it’s during or shortly after the dog days (their exact date varies); it’s mercurial, since it’s a multiple of four and I feel tempted to explore the idea of Quangeio as an Iberian companion of Mercury, much like Rosmerta in Gaul or something along similar lines of Hanuman and Rama; and there’s a bit of a hunch to it, too.

Some things don’t change
There are still instances where different sacrifices take place in consecutive days, but there’s no avoiding them without a symbolic loss. For instance, Vialia and Mercury’s birthday are just before the Nones of January and April, respectively, but if they were to take place on the 5th instead of the 4th day of those months, they’d lose their numerical significance. Ulleralia is another example, being just before the Ides of December, but it’s dedicated to the Norse god Ullr, who’s linked to winter and, in a way, circles (the ring, the shield, even the stretched bow). And the 12th day of the 12th month is a sort of chronological full circle on a wintery eve, which makes it an appropriate date. Then there’s Apotropalia and Agonalia, which are separated by just one day, but I hesitate about moving the latter to the Ides of January, given that I find it somewhat significant that there’s an equal amount of days between two sacrifices to Janus at the start of the year and during the Parentalia, which lasts from the 13th to the 21st of February. This is not to say that Janus has an infernal aspect, but there may be something to the number that’s connected to beginnings or transitions.

A canine god?

There is one ancient Iberian god called Quangeio, an obscure deity of uncertain function, since very little is known about Him. In this, He is not an isolated case, given that pre-Christian Iberians left no detailed account of their myths and customs, with only a handful of Classical authors providing us with a few lines of text, though not from first-hand observation. So for the most part, the only surviving traces are Roman-period altars on which theonyms were written, occasionally with some extra information and depictions, which together with the context of the pieces and identity of the worshipers may give us an idea of the nature and popularity of those deities. Even then, though, when compared to what we know about other Iberian gods, the information on Quangeio is scarce, leaving modern polytheists with little more than hypothesis they may or may not choose to follow in their religious practices.

What we know
There are up to eleven known altars dedicated to Quangeio, with a clear concentration in the Portuguese inner Beiras, which seem to have been the heartland of His cult, and two pieces in distant locations to the north and south. Not every scholar accepts all of them, as there are doubts on the precise wording of a few of the inscriptions and hence the deity being addressed – a task made difficult by the wide use of abbreviations, damaged state of some of the altars and the natural decay of the materials. Also in the mind of some academics is the exceptional and far-off location of the altar found up north in Galicia, leading some to question its validity. But people move and gods move with them, so it’s not impossible that a traveller may have established a bond with Quangeio and later erected an altar to Him in a distant land. In that sense, it is perhaps significant that whereas several of the known pieces were dedicated by people whose names can be classified as native, the one from Galicia was commissioned by someone with a typical Roman tria nomina. It is also worth noting that while the altars from the Beiras mention no epithet, those from the region south of the river Tagus are dedicated to Quangeio Tango and Turicaeco, which could hint at an expansion of the cult that was made native outside its heartland by means of tribal or communal epithets (Freitas Ferreira 2012: 69).

Sites where altars to Quangeio were found.

Sites where altars to Quangeio were found.

As for the etymology of the theonym, it has never been properly addressed by scholars. The closest thing to it is an informal analysis made by Francisco Villar at the request of José d’Encarnação, which the latter made public in 2002. In it, the Spanish academic follows the hypothesis put forward by Blanca Maria Prosper and derives the name from the Indo-European *kuanikio, which is an adjective form of the word for “dog”. Quangeio would therefore mean something like “canine (god)”, in reference either to the animal or the constellation (Encarnação 2002: 15.1).

There’s also some information to be drawn from the context of the findings, which mostly come from an area where the gods Reve, Bandua and Arentius were also worshipped. Assuming that They comprised a coherent pantheon of a particular group of communities, this may allow for a comparative analysis and hence identification of Quangeio’s function by establishing those of better-known deities. More on that bellow. Finally, the interpretatio romana is not an available tool in this case, lamentably, since none of the known altars identifies Quangeio with a Roman god. The closest we’ve got in that regard is the fact that some of the pieces were found just a few kilometres from others dedicated to Jupiter Repulsor and Conservator (Olivares Pedreño 2002: 228.1)

What to make of it
It’s hard to draw anything definitive from the information above. Quangeio seems to have been a Lusitanian god, perhaps even a main deity, bordering and possibly expanding into the Vettonian area, as suggested by the altar found in central Spain. And this is pretty much the only safe thing we can say, at least until the aforementioned etymology is confirmed by other scholars or new sources of information arise. Anything else is speculation or no more than educated guesses.

The only interpretational model I’ve come across is that of Olivares Pedreño, which took a handful of gods from the inner Beiras and Spanish Extremadura and awarded Them different functions based on what little information there is. The thesis assumes that different deities who seem to have been popular in the same region would not have similar roles, which is a reasonable assumption, even if not infallible given the fragmented state of our knowledge. And when applying that model to what may have been a regional pantheon that included Reve, Arentius, Bandua and Quangeio, the result is as follows:

Equivalence of the inner Beiras and Extremadura's pantheon, by Olivares Pedreño (2002: 219.2)

Equivalence of the regional pantheon of the inner Beiras and Extremadura, by Olivares Pedreño (2002: 219.2)

It’s an interesting proposal, one made even more enticing by a comparison between Quangeio and Sucellus, which was also expounded by Olivares Pedreño (2002: 219-28). After all and at least judging by the iconography, the better-known Gallo-Roman god has links to prosperity, the underworld and sovereignty (Green 2011: 125), which provides a model for Quangeio as a deity that’s hypothetically linked to dogs (who also accompany Sucellus), the underworld and Jupiter. A simpler interpretation was put forward by Jorge de Alarcão, who based on the canine etymology proposed a divine function similar to that of Hermes as a travelling companion (2009: 105). Which is also not impossible, though to be clear, there’s no concrete evidence and even Pedreño ends up admitting that we know so little about Quangeio that any conclusion is anything but a certainty (2002: 228.1).

A working hypothesis
At this point, I have my own idea brewing, one that tries to bring together all of the available information into a working possibility and even though, as with anything on which very little is known, its starting point is an assumption.

Assuming the etymology mentioned above is correct and Quangeio does means something like “canine (god)”, we’re left with simultaneously a world of possibilities and none in particular. Dogs have a long history in human cultures and have accumulated a myriad of uses and meanings: they’re hunters, keepers, scavengers, guides, healers and companions and have thus come to signify war, prosperity, health, safety, loyalty, friendship, death and the underworld or the road towards it. If Quangeio is a canine god, which of these functions and meanings apply to Him? There’s nothing that allows us to choose and even the equation with Dis Pater fails to narrow things down once you make a comparison with Sucellus. So instead of picking one or two randomly, I suggest a different approach: why choose?

There are better-known gods whose complex nature can be summed up in an animal that holds multiple meanings. A good example is Freyr, who’s best represented by the boar, a creature that signifies sexuality and reproduction, prosperity and abundance, but also the warrior virtues of an animal that can be deadly when attacking. It’s something that’s equally true to His sister, who’s simultaneously a goddess of lust, wealth and war. But the most pertinent example here is Epona, a deity whose very name is rooted in a word for “horse” and who is or at least has become a goddess of pretty much anything that’s horse-related. Travelling, cavalry and hence war, messaging, sports, farming, transportation of goods and thus prosperity, sovereignty and so forth. If it’s a role played by Her animal or if horses help producing the outcome, then She has a say in it. Which is why I’ve come to wonder if Quangeio is to dogs what Epona is to horses, thus linking Him with the full scope of canine meaning, from prosperity to stewardship, journeys to hunting, medicine to death and the underworld.

I stress that this is not an historical certainty, but a working hypothesis built on historical data and aimed at a modern cult. Maybe it’s wrong, maybe it’s right; perhaps future information will disprove it or it may strengthened it. It may well be that Quangeio was a canine god in a narrow sense, but even then, a widening of His role would not be an unheard of thing in the world of polytheistic religions. Gods evolve, their cults grow and shrink, as do their roles accordingly. Take the Hindu goddess Saraswati, for instance, who started as a river deity and then grew into one of anything that flows, including the figurative flow of music, knowledge and writing. So if an all-encompassing canine is a new development for a god that used to have a more narrow sense, so be it.

Basics of a modern cult
Again, keeping in mind that this is based on assumptions, how to approach Quangeio? As a dog-lover, of course! We don’t know how He was worshipped, but it’s safe to assume that He would have received offerings in at least a partly Roman fashion. Something along the lines of Gallo-Roman ritual would not be out of place, too. As for a festive date, I reckon any time during July or August, the so-called dog days, is an appropriate choice and there’s a long tradition of canine worship during that period: think of the Nemoralia on August 13th or even of the Catholic Saint Christopher and Saint Roch, whose feasts are on July 25th and August 16th, respectively. Pamper your dogs during the day you end up choosing, leave food out for stray ones or donate to a dog shelter. Or all of the above!

Add epitephs for greater precision: Repulsor or Conservator for protection, Medicus for health (yours or your dog’s), Viator for journeys (there’s a mercurial link right there!) or Psychopompus for guiding the souls (another mercurial connection). You can also add local epithets and try to discern signs of divine approval or disapproval. A dog paw would be a good symbol for Quangeio or a dog head with a star above, representing Sirius, a sign of both the constellation that could be linked to His name and of the time of His modern festival. And there’s also an additional layer of meaning to it, since the area that yielded a greater number of known altars – and thus may have been the heartland of His cult – is around the Star Mountain or, in Portuguese, Serra da Estrela, which is also the name of a dog breed.

And don’t be afraid to try and fail. Try again! It isn’t easy to reconnect with an old god, even more so one who is little known and His exact nature uncertain, but I myself am not writing this as an experienced worshipper of Quangeio. He’s a very recent discovery for me and indeed much of what I wrote here came to mind as I was producing the initial version of this post. I don’t yet know which date I’ll choose to honour Him annually nor how it will turn out, but I will try. No way a dog lover like myself would ignore a possible canine god from my native country!

Works cited
ALARCÃO, Jorge. 2009. “A religião dos Lusitanos e Calaicos” in Conimbriga XLVIII. Coimbra: Universidade de Coimbra, pp. 81-121.
ENCARNAÇÃO, José d’. 2002. “Das religiões e divindades indígenas na Lusitânia” in Religiões da Lusitânia, coord. José Cardim Ribeiro, Lisboa: Loquuntur Saxa, Museu Nacional de Arqueologia, pp. 11-16.
FREITAS FERREIRA, Daniela Filipa de. 2012. Memória coletiva e formas representativas do (espaço) religioso. Masters dissertation, Departamento de Ciências e Técnicas do Património. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
GREEN, Miranda. 2011. The Gods of the Celts. Stroud: Sutton Publishing.
OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos. 2002. Los Dioses de la Hispania Céltica. Madrid: Real Academia de Historia; Universidad de Alicante.

Beginners’ guide finished!

So after a few weeks writing it, my beginners’ guide to Roman polytheism is finally done and published on the menu above (you can just click here). It’s not as simple and straightforward as I initially hoped for, but there’s no way of presenting the basics of Roman polytheism without pointing out the traps of both fossilization and modern notions of religion. And as a result, it came out a somewhat extensive text, though it is subdivided into several sections and the one on the things you do need nonetheless remains the more direct in terms of providing short lists.

Guia - foto

Mind you, it’s not a closed text. In time, if needed, I may add new sections and I’m open to suggestions and corrections, especially with regard to the orthopraxy. Feel free to put forward ideas for consideration. It may not be a unanimous view of the topic – nor is it meant to, because very few things in life are unanimous – but it’s supposed to be more than just my personal view of Roman polytheism.